Voltar ao blog
Governança

Inventário de casos de uso de IA: os 7 campos e como montar

LLLuis Lima ·5 min de leitura
LatamIA · Governança

Você não consegue governar aquilo que não conhece. É por isso que o primeiro controle de governança de IA não é uma política. É um inventário.

E ele não precisa começar com um sistema sofisticado. Uma planilha resolve a primeira versão, e resolve bem.

O que é o inventário de casos de uso

É o registro estruturado de todas as atividades em que a inteligência artificial participa dentro da empresa, com informação suficiente para decidir o que cada uma exige em termos de controle.

Ele responde a quatro perguntas que a liderança precisa conseguir responder a qualquer momento: onde usamos IA, para qual propósito, sob quais controles e quem responde por cada uso.

Sem esse registro, qualquer política escrita descreve uma empresa que não existe.

Os sete campos

Campo O que ele responde
Nome do caso de uso O que a IA faz, descrito como atividade e não como ferramenta
Área responsável Qual área do negócio é dona do processo
Objetivo Por que esse uso existe e qual ganho ele busca
Ferramenta ou modelo O que está sendo usado, incluindo versão quando aplicável
Dados utilizados O que entra na ferramenta, com atenção a dado pessoal e financeiro
Decisão afetada Qual decisão de negócio é influenciada pela saída
Impacto do erro O que acontece se a resposta estiver errada

Sete campos é o mínimo viável. Na prática, vale acrescentar mais três à medida que o inventário amadurece: dono nomeado, nível de autonomia e data da última revisão.

Por que o nome do caso é o campo mais importante

Já vi inventário cuja primeira linha dizia "usar IA na controladoria". Isso não é um caso de uso, é um rótulo. Não permite governar nada, porque não descreve nada.

Compare as duas versões:

Antes: Usar IA na controladoria Depois: Preparar a explicação mensal das variações para revisão da contabilidade

O segundo nome já entrega o propósito, o público, o responsável e o ponto exato em que a revisão humana precisa acontecer. É o controle mais barato que existe, e quase ninguém aplica.

Regra prática de nomenclatura

Escreva o nome como um verbo de negócio seguido do entregável e do destinatário.

[verbo] + [o que é produzido] + [para quem ou para qual etapa]

Se o nome menciona a ferramenta em vez da atividade, ele ainda não está pronto. "Usar ChatGPT" descreve um software. "Redigir a primeira resposta a chamados de nível 1 para revisão do analista" descreve um processo que pode ser controlado.

Um exemplo preenchido

Campo Conteúdo
Nome Preparar a explicação mensal das variações para revisão da contabilidade
Área responsável Controladoria
Dono nomeado Gerente de controladoria
Objetivo Reduzir o tempo da primeira leitura de desempenho mensal
Ferramenta Assistente corporativo, versão contratada
Dados utilizados DRE, orçamento e notas explicativas. Sem dado pessoal.
Decisão afetada Leitura de desempenho enviada ao CFO e, indiretamente, ao conselho
Impacto do erro Alto. Evento não recorrente virar tendência na comunicação ao conselho.
Nível de autonomia Rascunha. Revisão humana obrigatória antes de qualquer circulação.
Última revisão Data da aprovação inicial

Repare no que esse registro permite decidir. Como o impacto é alto e a autonomia é média, o caso exige teste documentado, aprovação formal e registro das fontes. Como não há dado pessoal, a discussão de LGPD não se aplica aqui, mas se aplicaria se o mesmo desenho fosse usado para análise de folha.

Como montar o seu

1. Levante antes de registrar. O inventário é o produto de um levantamento, não o substituto dele. Se você distribuir a planilha antes de conversar com as áreas, vai receber células vazias. O método de levantamento está em shadow AI: o uso invisível de IA.

2. Comece por quem produz material que circula. Finanças, jurídico, marketing, atendimento e RH. É onde o impacto de um erro sai do time.

3. Uma linha por atividade, não por ferramenta. A mesma ferramenta pode aparecer em oito linhas diferentes, e isso está correto. O que se governa é a atividade.

4. Aceite a primeira versão incompleta. Um inventário com doze casos bem descritos vale mais do que um com sessenta rótulos genéricos. Você vai encontrar mais casos depois, e tudo bem.

5. Defina quem mantém. Um inventário sem responsável de manutenção fica desatualizado em um trimestre. Normalmente é a mesma pessoa que conduziu o levantamento.

Os quatro erros mais comuns

Registrar ferramenta em vez de atividade. Já tratado acima, e é o erro que inviabiliza todos os passos seguintes.

Deixar o campo de dados vago. "Dados internos" não permite avaliar nada. Especifique quais informações efetivamente entram, e sinalize explicitamente se há dado pessoal.

Pular o campo de decisão afetada. É ele que separa uso decorativo de uso que importa. Se ninguém consegue nomear a decisão influenciada, provavelmente o caso é de baixo risco, e isso também é uma informação útil.

Tratar o inventário como entregável final. Ele é insumo. O que se faz com ele é a classificação de risco por impacto e autonomia, que define quais controles cada caso exige.

O que muda depois do inventário

A discussão interna sobre IA muda de qualidade quase imediatamente, e por um motivo simples: para de ser sobre a tecnologia e passa a ser sobre processos concretos com nome, dono e consequência.

Reuniões que antes giravam em torno de "precisamos de uma política de IA" passam a girar em torno de "esses três casos precisam de revisão humana obrigatória e este aqui pode seguir como está". É uma conversa que a liderança consegue conduzir.

Perguntas frequentes

Preciso de uma ferramenta específica para o inventário? Não. Uma planilha compartilhada resolve a primeira versão e boa parte das empresas de médio porte nunca precisa de mais do que isso.

Com que frequência revisar? Trimestral para os casos de alto impacto, semestral para os de impacto médio e anual para o resto. Além disso, sempre que mudar o modelo, o dado, o público, a decisão ou o time responsável.

Devo incluir usos pessoais dos funcionários? Se o resultado entra em um processo da empresa, sim. O critério não é onde a pessoa usou, é se a saída influencia trabalho que circula.


Template pronto para copiar. O guia de governança de IA traz o inventário em formato de tabela para preencher, junto com a matriz de triagem e a tabela de controles mínimos por faixa de risco. Baixar gratuitamente.

E-book gratuito

O Executivo Aumentado

Guia com plano de 30 dias, template de inventário, matriz de risco e o autodiagnóstico CLARO. 43 páginas, ISBN registrado.

Baixar gratuitamente
Ver todos os artigos